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✒ Artigo

Prepara um caldo

Alguns irmãos foram ter com o ancião Antônio e lhe pediram uma palavra para poderem ser salvos. O ancião disse:  - Escutaram as Escrituras? Lá tem o que lhes serve. Mas eles insistiram: 
- Pai, também  queremos ouvir do senhor  uma palavra. Antônio respondeu: 
- Diz o evangelho: “Se alguém lhe der uma bofetada numa face, ofereça também a outra”. Disseram: 
- Isso não sabemos fazer. Continuou o ancião: 
- Se não conseguem oferecer a outra face, suportem ao menos ser esbofeteados numa. Responderam: 
- Nem isso somos capazes de fazer. Antônio disse: 
- Se não conseguem fazer nem isso, ao menos, não devolvam o mal que receberam. Os irmãos replicaram:
 - Isso também não damos conta de fazer. Então o ancião disse ao seu discípulo: 
- Prepara um caldo, porque os nossos irmãos estão doentes. E a eles falou:
- Se para isso não têm  capacidade, se aquilo outro não querem, o que posso dizer para vocês? O que precisam mesmo é rezar muito.

No 7º Domingo do Tempo Comum, encontramos mais uma página do evangelho de Lucas que desafia o nosso “bom senso”. Jesus faz uma comparação entre os seguidores dele e os pecadores. Nos apresenta atitudes que nos parecem impossíveis ou, pelo menos, nada espontâneas. Amar aqueles que nos amam é mais lógico e comum. Com certeza, mais fácil. Mas amar os inimigos, fazer o bem e até emprestar sem esperar nada em troca, quando se viu? A sociedade daquele tempo e também a nossa, hoje, não pensam assim. Os inimigos devem ser aniquilados, isolados ou desarmados. Se alguém nos deve? Vamos à Justiça, até as últimas instâncias. E assim por diante. O que aconteceria se ninguém mais pagasse as dívidas? Quem ganharia e quem perderia com isso? Evidentemente as palavras de Jesus continuam a nos surpreender, provavelmente como devem ter “chocado” os ouvintes daquele tempo. Certo, podemos dar um pouco de desconto, lembrando outros exemplos da linguagem “exagerada” de Jesus, que encontramos nos evangelhos. No entanto, os seguidores do Mestre de Nazaré devem praticar algo diferente dos demais. 

Jesus não veio para revelar uma imagem de Deus que confirmasse a ordem constituída. O “Pai” dele é amor e gratuidade total, ao ponto que “é bondoso também com os ingratos e os maus” (Lc 6,35). Os verdadeiro “filhos” dele, não podem agir de outra forma. Foi Deus que criou os seus filhos à imagem e semelhança dele (Gn 1,27) e os filhos não podem mudar as feições do Pai. As Escrituras nos mostram claramente que o povo eleito, ao longo do tempo, corrigiu a “imagem” de Deus que ele tinha. O Deus da conquista da terra, do tempo dos reis e das suas guerras é diferente do Deus dos profetas que quer “a misericórdia e não os sacrifícios” (Os 6,6). Também Jesus, na sinagoga de Nazaré, quando leu o trecho de Isaías, parou no “ano de graça do Senhor” e não leu “o dia da vingança para o nosso Deus” (Is 61,1-3). O “hoje” que ele anunciava era o da “gratuidade, não da vingança! A exortação de Jesus é sempre aquela que repetimos inúmeras vezes no Ano Santo da Misericórdia: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

Quando teremos uma convivência humana sem inimizades, sem dívidas, sem condenações? Não sabemos, mas, como cristãos, não podemos deixar de desejar e trabalhar para que a nossa sociedade se torne, cada vez mais, humana e fraterna. Ainda estamos no tempo das contraposições, das feras que brigam com outras feras, da corrida às armas, das dívidas de países inteiros espoliados de suas riquezas naturais, da corrupção que distorce a verdade, o direito e a justiça. Por isso, achamos tão difíceis as palavras de Jesus. Façamos a experiência do perdão, mesmo que  os outros pensem qualquer coisa de nós. Aprendamos a desejar o bem e a paz para todos, incluindo os desafetos. Talvez, consigamos entender melhor a bondade do Deus no qual dizemos acreditar. Para sarar dos sentimentos de ódio e vingança só o “caldo” da misericórdia e da oração. Um santo remédio!                                  

Dom Pedro José Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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