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✒ Artigo

O rosto de pedra

Luizinho gostava de contemplar uma imensa pedra que tinha as feições de um rosto. A pedra ficava na encosta da montanha. O rapaz podia vê-la de sua casa. O rosto tinha a expressão de grande força, bondade, alegria e amor que fazia vibrar o coração do garoto. Uma lenda dizia que, no futuro surgiria naquele lugar um homem muito parecido com o rosto de pedra. Durante a sua infância, e mesmo depois de adulto, o garoto Luizinho cresceu contemplando o rosto de pedra que tanto o cativava. Certo dia, Luizinho, já grande, foi fazer compras na cidade. O povo da localidade conversava a respeito da lenda quando, de repente, alguém exclamou: - Vejam só! Luizinho é o homem que se parece com o grande rosto da pedra. Era verdade! Luizinho se tornara semelhante ao rosto que contemplava e que ocupava diariamente os seus pensamentos.

No Segundo Domingo da Quaresma encontramos, todo ano, a página da “Transfiguração”, desta vez, segundo o evangelho de Mateus. Para nos comunicar a sua mensagem e conforme o jeito bíblico de explicar as coisas, os evangelistas usam uma linguagem que chamamos de “narrativa”. Em lugar de definições e conceitos, preferem contar um acontecimento. Tudo isso devia servir para preparar os discípulos ao escândalo da cruz que também continuava a ficar difícil para todos aqueles que se aproximavam para abraçar a fé cristã. Para chegar a ser o Senhor glorioso da ressurreição o mesmo Jesus precisava antes passar pela terrível morte na cruz. Nunca será fácil enxergar algo luminoso na escuridão, na agonia e no abandono daquela morte. A voz do Pai confirma: “Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5).

Onde está a luminosidade daquele Jesus tão humano que acabará rejeitado e condenado à mesma sorte dos malfeitores? Podemos entender isso somente acreditando no amor e na solidariedade divina que não abandona os seus filhos e vai resgatá-los até o fim, até na morte, para que participem da vida plena: a comunhão divina. Toda a vida de Jesus, todas as suas palavras, foram luminosas para quem o encontrava. Semeou esperança para os pobres, consolação aos tristes, paz para que vivia sem rumo e sem sentido. Assim deve ser o dia a dia de quem decide seguir o Senhor no caminho da doação generosa da própria vida. Quem se dispõe a servir aos pobres e aos pequenos é cobrado, é consumido. Se desgasta, sim, mas não desiste de amar, de perdoar, de acolher, como fez Jesus. Outros preferem aproveitar dos irmãos, explorá-los, enganá-los, tirar proveito da ingenuidade ou da confiança dos outros. Qual é a vida mais luminosa, de quem brilha pelo sucesso, a grandeza humana, ou a vida de quem, na maioria das vezes no escondimento da própria casa, de um hospital, de um asilo, de um abrigo, de um campo de refugiados, de um mosteiro (por que não?) se consome para fazer os outros felizes? Desta vez a resposta vem de Pedro que inebriado por alguns momentos pelo rosto brilhante de Jesus disse que era bom ficar lá, que era, simplesmente, maravilhoso.

Nós todos aprendemos a caminhar na vida olhando para os que nos precederam e que já estavam caminhando à nossa frente. Até alguns tempos atrás eram os pais, os familiares, as pessoas ao nosso redor que, com o seu exemplo, nos transmitiam a sabedoria da vida, os valores e a própria fé. Aos poucos, para quem queria, tínhamos tempo de assimilar aqueles ensinamentos. Hoje, evidentemente, não é mais assim. Muitas informações nos chegam de todo e qualquer lado e de toda e qualquer forma cada vez mais apressadas, misturadas, atropelando-se entre si. Quantos querem nos ensinar a viver porque, de fato, sempre precisamos olhar para os outros para aprender a dar um sentido à nossa vida. Também quem está fechado no seu individualismo doentio se achando o único ou a única que entende alguma coisa, não está imune da tentação de imitar alguém. Para nós cristãos, terá alguém mais luminoso do Senhor Jesus? É a ele que devemos olhar sempre. Quem sabe que um dia consigamos mesmo nos assemelhar a ele. Como foi para o Luizinho com aquele rosto bonito de pedra que ocupava os seus pensamentos.

Dom Pedro José Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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