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✒ Artigo

Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia (At 10,40) 

É sempre difícil expressar em poucas palavras a grandeza do evento pascal. Os próprios evangelistas tiveram que encontrar palavras novas para dizer algo inesperado e surpreendente. Isso  vale também para nós. Se reduzimos a Páscoa a algumas afirmações decoradas podemos saber dizer que “Jesus ressuscitou”, mas, com isso, não deixamos ainda que essa “novidade” ilumine a nossa vida. Com efeito, a Páscoa de Jesus nos comunica algo extraordinário sobre Deus, Jesus e nós mesmos. 

Afirmar que o Deus, Pai de Jesus Cristo é o “Deus da Vida e não da morte” é mais do que falar de imortalidade ou algo semelhante. Desde o Antigo Testamento, aprendemos que o problema do ser humano não é a morte biológica em si, que nos  é apresentada como a conclusão natural de uma existência passageira. O que faz a diferença entre quem está vivo e quem está morto não é o número dos anos alcançados, mas a maneira de viver. Quem acompanha e obedece ao projeto de Deus está “vivo”. Quem não acolhe a proposta de Deus já está “morto”, apesar de estar andando ainda pelos caminhos deste mundo. Ou seja: somente quem está em “comunhão” com Deus está vivo de verdade. No Novo Testamento, é a vida de Jesus que nos é apresentada como uma forma de vida perfeitamente em acordo com a vontade do Pai. Isso não significa que tudo foi fácil para ele. Até o último dia, os seus seguidores esperavam alguma manifestação grandiosa de poder que revertesse a situação ameaçadora na qual ele se encontrava. Na Paixão, foram tantos os que gritaram: “Se és o Cristo, desce da cruz, salva a ti mesmo e a nós” (Lc 23,35-39).

Para muitos, ainda hoje,  Jesus não soube aproveitar do seu sucesso, perdeu todas as oportunidades que a sua fama lhe oferecia para se tornar poderoso. Foi sempre essa a tentação que o acompanhou. É a mesma que nós todos experimentamos, quando temos que decidir como gastar a nossa vida e os talentos que recebemos sem pedir: usá-los para dominar os irmãos ou para servi-los? Se o Deus que Jesus veio nos fazer conhecer é amor, somente ele  pode doar. Não quer tirar nada de ninguém e nem obrigar a fazer a sua vontade. Somos nós que nos preocupamos demais com aquilo que vamos ganhar. A vida de Jesus foi uma vida totalmente doada, a serviço do Reino de Deus que ele veio iniciar. Para segui-lo, chamou “os que ele quis”, mas ninguém foi forçado a fazê-lo. O jovem rico, por exemplo, foi chamado ao seguimento, mas ficou livre de decidir e foi embora triste  (Mt 19,16-22). Os apóstolos fugiram na hora da Paixão, mas Jesus, depois da Ressurreição, não os culpou pela covardia e nem os ameaçou de castigos, ao contrário, ofereceu-lhes a paz e o perdão. Por tudo isso, nós ousamos dizer que Jesus, “com forte clamor e lágrimas” (Hb 5,7), mas sobretudo com amor total caminhou livremente - e conscientemente - rumo à morte de cruz, e São Paulo chama isso de “obediência” ao Pai (Fl 2,8). Com essa vida e com essa morte, Jesus se tornou o “homem” que realizou, plenamente, o Projeto de Deus como o próprio Deus tinha pensado desde o início.

A vida dele foi diferente, sempre doada, sempre promovendo novas vidas com o perdão, a fraternidade, a partilha, a cura da maior de todas as doenças: o pecado entendido como “morte”, porque quando falta o amor morremos, afastando-nos de Deus e dos irmãos. Deus Pai “ressuscita” Jesus, porque a vida amorosa vivida pelo Filho encarnado é a própria vida de Deus que nem a morte pode vencer. A Vida-Amor não morre, continua viva, porque participa da vida divina. A vida nova da “ressurreição”- a vida verdadeira que não morre mais - começa em nós, quando acreditamos e praticamos o que afirmamos no nosso Batismo: deixamos as obras mortas que levam à morte – também se  chamadas poder, riqueza, prestigio, força - e abraçamos as obras que geram vida, encontro, misericórdia, união. A Vida Nova da Páscoa está mais perto de nós do que pensamos e lembramos, pois está conosco desde quando pela fé, a esperança e o amor tivemos o dom, não merecido, de participar da Vida Divina. Essa Vida é o mesmo Espírito daquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos e que habita em nós (Rm 8,11). A comunhão com Deus-Amor não morre.

Dom Pedro José Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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