Câncer de mama na maturidade pede atenção sem etarismo e exige olhar individualizado
- Redação
- 11/04/2026
- Câncer de mama
Mudanças hormonais, metabólicas e cognitivas do envelhecimento influenciam tanto a mamografia quanto às decisões clínicas ao longo da jornada de cuidado; tema será debatido na 56ª Jornada Paulista de Radiologia.
Dados do IBGE mostram que a expectativa de vida das mulheres no Brasil chegou a 79,9 anos em 2024. O instituto também aponta que, ao atingir os 80 anos, as brasileiras ainda têm, em média, mais 9,5 anos de vida1. Nesse contexto de maior longevidade feminina, cresce também a necessidade de discutir o câncer de mama para além das faixas etárias mais lembradas no dia a dia dos serviços de saúde. Embora o risco da doença aumente com a idade, mulheres idosas ainda podem ser invisibilizadas tanto nas estratégias de rastreamento quanto nas decisões sobre investigação e tratamento.
Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano2. Além da alta incidência, o cenário chama atenção para o impacto da doença em idades mais avançadas: o instituto aponta que as taxas de mortalidade são mais elevadas entre mulheres mais velhas e que, ao longo do tempo, houve aumento da proporção de óbitos em pacientes com 80 anos ou mais.
Para a Dra. Dandara Matos, Tecnóloga em Radiologia e docente na área, esse cenário mostra que o envelhecimento não pode ser tratado como um detalhe secundário no cuidado com a mama. “Existe uma falsa percepção de que, em determinada idade, essa mulher sai do radar do rastreamento e até da discussão terapêutica. Mas a realidade é que o câncer de mama continua acontecendo em idades avançadas, inclusive após os 80 anos, e essas pacientes não podem ser invisibilizadas pelos sistemas de saúde”, afirma.
Desde setembro de 2025, o SUS ampliou o acesso à mamografia ao incluir a possibilidade de realização do exame, mesmo sem sintomas, por mulheres de 40 a 49 anos, desde que a decisão seja tomada em conjunto com o profissional de saúde e com orientação sobre riscos e benefícios3. A mudança também reforçou o rastreamento até os 74 anos, com periodicidade bienal3. Em recomendações publicadas em 2023, o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) orientam manter o rastreamento mamográfico após os 75 anos quando a mulher não apresentar comorbidades que reduzam sua expectativa de vida4.
Esse ponto é central porque envelhecer não significa adoecer da mesma forma. O perfil das mulheres idosas mudou: hoje, muitas seguem social, física e intelectualmente ativas, com mais autonomia e maior expectativa de vida. Na prática, isso reforça a necessidade de avaliar cada caso de forma individualizada, em vez de adotar decisões automáticas baseadas apenas na idade cronológica.
Do ponto de vista radiológico, uma das mudanças mais conhecidas do envelhecimento é a redução da densidade mamária após a menopausa em parte das mulheres. Em geral, mamas menos densas tendem a facilitar a visualização de algumas lesões na mamografia, o que pode favorecer a leitura do exame. Ainda assim, essa não é uma regra absoluta: a composição mamária varia entre pacientes, e a interpretação precisa sempre considerar sintomas, achados prévios, uso de terapia hormonal, histórico familiar e contexto clínico global.
“Perder densidade mamária pode, em muitos casos, melhorar a detecção de lesões, mas isso não significa que o rastreamento da mulher idosa seja simples ou que a decisão esteja resolvida. A qualidade do cuidado depende de entender quem é essa paciente, qual é sua funcionalidade, quais doenças coexistem, se ela consegue seguir com a investigação e o acompanhamento e qual benefício real o rastreamento ou o tratamento podem trazer para a sua vida”, explica Dra. Dandara.
Além das mudanças hormonais, o envelhecimento também traz alterações metabólicas e sistêmicas que devem entrar na conversa. Obesidade, diabetes, sedentarismo e inflamação crônica de baixo grau podem influenciar o risco de câncer de mama e a jornada assistencial dessas pacientes. Soma-se a isso o impacto das mudanças musculoesqueléticas, que podem comprometer força, mobilidade, postura e provocar dor, interferindo diretamente no posicionamento e na execução adequada da mamografia.
Outro aspecto importante é a dimensão cognitiva e funcional. Dificuldades de memória, perda de autonomia, dependência de cuidadores, limitações de mobilidade e barreiras de acesso ao serviço de saúde podem comprometer a realização da mamografia, o retorno para exames complementares e o início oportuno do tratamento. Em alguns casos, até sintomas ou queixas relevantes podem deixar de ser valorizados, seja pela própria paciente, seja por serem tratados de forma equivocada como algo “esperado da idade”.
Na avaliação da especialista, esse debate precisa avançar também para o pós-diagnóstico. “Quando uma paciente descobre um câncer de mama aos 80 anos, por exemplo, ela não pode ser automaticamente subtratada ou excluída de possibilidades terapêuticas apenas por causa da idade. O etarismo ainda atravessa o cuidado em saúde. O mais adequado é avaliar reserva funcional, cognição, comorbidades, desejo da paciente e potencial de benefício. Individualização não é exceção: é parte central da boa prática”, diz.
A mensagem, segundo a tecnóloga, é clara: o envelhecimento precisa ser incorporado ao rastreamento e ao tratamento de forma qualificada, sem generalizações. “A discussão não é apenas até que idade fazer mamografia, mas como garantir que essa mulher seja vista integralmente. Hoje temos uma população feminina mais longeva, ativa e informada. Isso exige um olhar menos padronizado e mais humano, técnico e individualizado”, conclui Dra. Dandara Matos.
O tema será debatido durante a JPR 2026, maior congresso de diagnóstico por imagem da América Latina, no dia 30 de abril de 2026, das 16h40 às 17h40, em sessão voltada a Técnicos e Tecnólogos em Radiologia. Na ocasião, a Dra. Dandara Matos ministra a aula “O Impacto das Mudanças Hormonais, Metabólicas e Cognitivas na Qualidade do Rastreamento Mamográfico em Idosas”.
Serviço — JPR 2026
Evento: 56ª Jornada Paulista de Radiologia
Data: 30 de abril a 3 de maio de 2026
Local: Transamerica Expo Center — São Paulo (SP)
Mais informações: www.jpr.org.br JP
