Guerra no Irã: os efeitos globais e os reflexos para o Amazonas
A escalada da guerra no Irã reposiciona o mundo diante de um velho conhecido da economia global: o choque do petróleo. Em um cenário de tensão no Oriente Médio — região responsável por parcela significativa da produção mundial — o conflito já provoca impactos imediatos, com efeitos em cadeia sobre inflação, juros e crescimento econômico.
Desde o início do conflito, a reação do mercado internacional foi imediata. O barril de petróleo chegou a subir mais de 8% em poucos dias, ultrapassando a faixa de US$ 80 e, em alguns momentos, se aproximando ou superando os US$ 100.
Esse movimento está diretamente ligado ao risco de interrupção da oferta global, especialmente devido às tensões no Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Além disso, ataques a infraestruturas energéticas e ameaças à navegação elevam o risco de uma escassez global, considerada por analistas como uma das maiores disrupções já vistas no mercado de petróleo.
O aumento do petróleo rapidamente se traduz em inflação. Isso acontece porque a energia está na base de praticamente toda a cadeia produtiva: transporte, indústria, alimentos e serviços.
No Brasil, o impacto já começou a aparecer, levando o governo a elevar a projeção de inflação para 2026, em função da alta do petróleo. No pior cenário, a inflação deverá ficar acima de 4%.
E o efeito não para por aí. Combustíveis mais caros elevam o custo do transporte. Fretes mais caros pressionam alimentos e produtos básicos. Inflação mais alta dificulta a queda dos juros. Juros elevados reduzem investimentos e consumo. Ou seja, um conflito geopolítico distante se transforma rapidamente em aumento do custo de vida dentro do Brasil.
O impacto da guerra não é uniforme. Alguns setores podem se beneficiar, enquanto outros sofrem perdas relevantes. Por um lado, o Brasil, como exportador de petróleo, pode aumentar sua arrecadação e receitas. Há estimativas de ganhos adicionais bilionários para o país com o petróleo mais caro.
Por outro lado, o setor produtivo e a população sentem os efeitos negativos, em aumento dos combustíveis, elevação dos custos logísticos, pressão inflacionária e risco de juros mais altos. Na prática, o ganho fiscal tende a ser compensado por perdas na atividade econômica e no poder de compra da população.
No caso do Amazonas, os impactos são ainda mais sensíveis, por características estruturais da economia local. A Zona Franca de Manaus, principal motor econômico do estado, depende fortemente de insumos industriais transportados de outras regiões ou do exterior. A logística é baseada em transporte fluvial, aéreo e rodoviário. As cadeias produtivas são integradas ao mercado nacional.
Com o aumento do combustível, há um efeito direto no encarecimento do transporte de insumos, aumento do custo de produção industrial e consequente perda de competitividade frente a outros polos. Além disso, a elevação dos juros pode reduzir o consumo nacional, afetando a demanda por produtos fabricados no Polo Industrial de Manaus.
O Amazonas, pela sua localização geográfica, já enfrenta custos logísticos elevados. Com o petróleo mais caro, essa condição se intensifica: alimentos e produtos básicos chegam mais caros, energia e transporte pressionam o orçamento das famílias, inflação regional tende a ser mais sentida.
Há um efeito ambíguo sobre as contas públicas do estado. Ao mesmo tempo que pode provocar aumento de arrecadação indireta via combustíveis e maior circulação de recursos no setor energético, há também os riscos de desaceleração econômica, reduzindo consumo e ICMS, queda na atividade industrial afetando receitas da Zona Franca, aumento de despesas públicas com subsídios e políticas sociais. Ou seja, o impacto final depende da duração e intensidade do conflito.
O fator decisivo será o tempo. Especialistas apontam que uma escalada prolongada pode manter o petróleo acima de US$ 100 por mais tempo, ampliando os efeitos inflacionários e reduzindo o crescimento global. Por outro lado, uma descompressão geopolítica pode estabilizar os preços e reduzir os impactos.
Os conflitos parecem distantes, mas as consequências são muito próximas e deverão influenciar, inclusive, na esfera política. Em anos eleitorais, a economia e a percepção de bem-estar pesam muito na urna.
Inflação e crescimento econômico, portanto, podem ser alguns dos temas recorrentes no debate eleitoral nacional, caso o conflito se estenda, com a alta do petróleo pressionando os preços dos combustíveis e o custo de vida da população. O eleitor, certamente, cobrará medidas de impacto para protegê-lo, aos que estão no poder e respostas aos que disputam vagas no legislativo e executivo.
O momento é de expectativa para todos, e também de muita apreensão. A guerra não é um caminho aceitável e não apenas pelos efeitos na economia, mas, principalmente, pela destruição irreparável de vidas.
Marcellus Campêlo é engenheiro civil, especialista em Saneamento Básico e em Governança e Inovação Pública; exerce, atualmente, os cargos de secretário de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano – Sedurb e da Unidade Gestora de Projetos Especiais – UGPE
