O diabetes tipo 2 é uma doença crônica e progressiva que requer acompanhamento contínuo e, em muitos casos, ajustes no tratamento ao longo do tempo. A demora para iniciar ou intensificar o tratamento no momento adequado pode manter o paciente por períodos prolongados com controle glicêmico fora da meta, causando riscos maiores de desenvolver complicações futuras. Isso é conhecido como inércia terapêutica, um dos principais desafios no manejo do diabetes atualmente1,2.
A inércia terapêutica pode ocorrer em diferentes momentos do tratamento e pode estar relacionada a fatores do paciente, do profissional de saúde e do próprio sistema de saúde, como dificuldades de adesão ao tratamento, receio de eventos adversos, limitações de tempo e recursos para acompanhamento médico e barreiras organizacionais à continuidade do cuidado2,3.
As consequências de manter a doença sem controle adequado vão além dos níveis de glicose no sangue e envolvem riscos cardiovasculares e renais. Estudos clínicos mostram que estratégias de controle glicêmico mais intensivo podem reduzir o risco de complicações renais em pessoas com diabetes tipo 24. Além disso, as diretrizes atuais recomendam que o acompanhamento considere não apenas as metas glicêmicas, mas também o risco cardiovascular e renal de cada paciente5,6.
Romper a inércia terapêutica é um dos principais desafios no manejo do diabetes atualmente. Crédito: Freepik
Um estudo com 81.573 pacientes com diabetes tipo 2 no Reino Unido apontou que, entre participantes com hemoglobina glicada (HbA1c) ≥7% em uso de um medicamento antidiabético oral, o tempo mediano até a inclusão de um segundo medicamento foi de 2,9 anos. Entre aqueles que já utilizavam dois medicamentos, o intervalo mediano até intensificar para um terceiro medicamento foi superior a 7,2 anos1.
Outro estudo, também com dados de prática clínica do Reino Unido e envolvendo 105.477 pacientes com diabetes tipo 2, avaliou a relação entre o atraso na intensificação do tratamento e a ocorrência de eventos cardiovasculares. Entre pacientes com HbA1c ≥7%, o atraso de um ano foi associado a um risco 67% maior de infarto do miocárdio, 51% maior de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e 64% maior de insuficiência cardíaca. O risco de um desfecho cardiovascular composto foi 62% maior7.
“A inércia terapêutica não significa apenas que um medicamento deixou de ser prescrito, e representa um atraso na tomada de decisão diante de um paciente que não está atingindo sua meta terapêutica. Como o diabetes tipo 2 é uma doença progressiva, o acompanhamento precisa ser contínuo e o tratamento deve ser reavaliado sempre que os objetivos individualizados não forem alcançados”, explica o cardiologista Jairo Lins Borges, médico consultor da Libbs.
A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2026 estabelece que, em adultos assintomáticos com diabetes tipo 2 que estejam em terapia dupla e permaneçam acima da meta glicêmica após três meses, deve ser considerada a intensificação para terapia tripla5. A American Diabetes Association também recomenda que a intensificação, desintensificação ou modificação do tratamento não seja adiada quando os objetivos individualizados não são alcançados6.
Além da avaliação da glicemia, as recomendações atuais orientam uma abordagem individualizada, levando em conta características clínicas, comorbidades, risco de eventos cardiovasculares e doença renal, entre outros6.
“O objetivo do tratamento do diabetes não deve ser apenas melhorar um resultado laboratorial, mas reduzir o risco de complicações futuras. Por isso, reconhecer precocemente quando a estratégia adotada não está sendo suficiente é fundamental para que médico e paciente possam discutir os próximos passos do tratamento de forma individualizada”, afirma o cardiologista.
Referências
- Khunti K, Wolden ML, Thorsted BL, Andersen M, Davies MJ. Clinical inertia in people with type 2 diabetes: a retrospective cohort study of more than 80,000 people. Diabetes Care. 2013;36(11):3411-7.
- Karam SL, Dendy J, Polu S, Blonde L. Overview of therapeutic inertia in diabetes: prevalence, causes, and consequences. Diabetes Spectr. 2020;33(1):8-15.
- Reach G, Pechtner V, Gentilella R, Corcos A, Ceriello A. Clinical inertia and its impact on treatment intensification in people with type 2 diabetes mellitus. Diabetes Metab. 2017;43(6):501-11. limitações de tempo e recursos para acompanhamento e barreiras organizacionais à continuidade do cuidado.
- Zoungas S, Arima H, Gerstein HC, Holman RR, Woodward M, Reaven P, et al. Effects of intensive glucose control on microvascular outcomes in patients with type 2 diabetes: a meta-analysis of individual participant data from randomised controlled trials. Lancet Diabetes Endocrinol. 2017;5(6):431-7.
- Valente F, Lyra R, Albuquerque L, et al. Manejo do Diabetes Mellitus Tipo 2. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2026).
- American Diabetes Association Professional Practice Committee for Diabetes*. 9. Pharmacologic Approaches to Glycemic Treatment: Standards of Care in Diabetes-2026. Diabetes Care. 2026 Jan 1;49(Suppl 1):S183-S215.
- Paul SK, Klein K, Thorsted BL, Wolden ML, Khunti K. Delay in treatment intensification increases the risks of cardiovascular events in patients with type 2 diabetes. Cardiovasc Diabetol. 2015;14:100.
Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do profissional de saúde entrevistado.
