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✒ Artigo

A outra metade do céu

Era uma linda noite de verão. O pequeno Nico passeava com a mãe. Para ele tudo era encantador: as casas iluminadas, as &aacu te;rvores[U1] , o ar perfumado. Olhou o céu estrelado e, de repente, ficou pensativo. A mãe, sábia, ficou calada, até que percebeu que Nico queria dizer alguma coisa. Então perguntou:
- Nico, está pensando em que? A criança ficou mais um instante em silêncio, como se estivesse organizando os s eus pens amentos e depois respondeu:
- Se esta metade do céu é tão bonita, a metade do outro lado deve ser ainda mais maravilhosa!
A Páscoa de Jesus é uma brecha que nos permite enxergar um pouco as maravilhas do outro lado da Vida. Sim, aquela Vi da plena , que é a Vida de Deus. Jesus, com o seu amor, com a sua existência totalmente doada, do início ao fim, abriu-nos o caminho do céu. Não para fugir deste mundo, material, cotidiano e passageiro, mas para que aquela luz chegasse até nós e nós pudéssemos ser iluminados e guiados por ela. Se a Cruz sempre será “escândalo e loucura”, a Ressurreição sempre será “novidade”, algo tão surpreendente e inimaginável que até os evangelistas tiveram que inventar palavras para comunicar a boa notícia. Em si, os termos usados só significam levantar-se do sono, erguer-se, como o faz alguém que estava deitado. Logo, os cristãos aprenderam que isso não era suficiente, não explicava nada, aliás, escondia o mais importante. Assim juntaram outras palavras.
 Começaram a dizer que Jesus tinha sido “sepultado”, ou seja, tinha realmente morrido porque a cruz n&atil de;o era ficção ou mentira. Depois disso, eis a novidade: ele tinha “ressuscitado” – levantado – dos mortos e agora era o Vivente. As mulheres que foram ao sepulcro escutaram as palavras: “Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito!” (Mt 28,6) ou: “Por que buscais entre os mortos o vivente?” (Lc 24,5). Pedro, após Pentecostes, dirá mais ainda: “Deus o ressuscitou, libertando-o das angústias da morte... (e) o constituiu Senhor e Cristo” (Atos 2, 24.36). Depois, em Atos 10,42 (2ª leitura do Dia de Páscoa) dirá: “Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos”. Aquele homem Jesus, vergonhosamente crucificado, agora está glorioso “exaltado à direita de Deus” (Atos 2, 33) o qual “lhe deu o Nome que está acima de todo nome, para que, ao Nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e de baixo da terra&r dquo; (Fl 2,9-10).
Não foi nada fácil para os primeiros cristãos encontrarem as palavras certas que podiam expressar tamanha nov idade.&n bsp; Nós hoje as repetimos quando rezamos o Credo, a nossa profissão de fé, muitas vezes sem nos dar conta do que dizemos. Não é mais a humanidade a buscar descobrir e agradar, de tantas formas, um “deus” desconhecido. Não será o nosso esforço a nos aproximar mais de Deus. Em Jesus morto e ressuscitado nos foi aberto, uma vez por todas, o caminho para o encontro amoroso entre o Pai e nós, os seus filhos, ainda dispersos, mas que o Filho, o Bom Pastor, quer reunir num só rebanho para que, juntos cantemos a vitória sobre o mal e a morte. Quando nos reunimos para celebrar a nossa fé, nas nossas Liturgias, este caminho aberto se torna uma realidade que podemos experimentar. O nosso Deus continua a nos convocar, a nos reunir, a perdoar os nossos pecados, a falar, a nos dar a sua paz e o seu Corpo e o seu Sangue como antecipação do banquete final do Reino celeste. As nossa s Missas não acontecem para nos fazer esquecer as angústias do tempo presente e nem para melhorar o nosso bem-estar psicológico. A Liturgia serve para nos fazer enxergar a novidade do Reino, a beleza da Vida Nova que a Ressurreição de Jesus descortina à nossa frente. Nas Missas, contemplamos a Nova Cidade, a Jerusalém celeste, onde “a morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas de antes passaram” (Ap 21,4). Somente se nos deixamos iluminar por esta luz “divina” sempre generosamente oferecida, podemos entender as sombras que ainda escurecem a nossa vida pessoal e de toda a humanidade. Metas maravilhosas nos fazem desejá-las e nos comprometem a buscar meios para alcançá-las. Como a metade das estrelas de Nico.  

Dom Pedro José Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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