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✒ Artigo

O reflexo

Uma mulher foi até a fonte do seu vilarejo. Era um pequeno espelho de água limpa e tinha árvores ao redor. Quando ela colocou o seu pote para pegar a água, viu um fruto colorido que parecia dizer para ela: "Me pegue!". A mulher alongou o braço na fonte para pegar o fruto bonito, mas ele sumiu imediatamente. O fruto apareceu novamente quando a mulher retirou o braço da água. Fez isso duas ou três vezes. Pensou que fosse alguma bruxaria, mas querendo mesmo pegar o fruto, começou a esvaziar a fonte. Trabalhou muito. Quando secou a fonte, o fruto não estava lá. Foi naquele momento que teve a certeza de escutar uma voz que dizia: "Por que procuras em baixo? O fruto está no alto!". A mulher levantou os olhos e viu o fruto colorido que procurava pendurado num galho. O que aparecia na fonte era somente o reflexo dele.

Nesta Quaresma, a partir do Terceiro Domingo, encontraremos trechos do evangelho de João. Todos os quatro evangelhos, com pequenas diferenças, apresentam aquela que é conhecida como a “expulsão dos vendilhões do Templo”. Mateus, Marcos e Lucas colocam esse acontecimento depois da entrada de Jesus em Jerusalém. Rapidamente se intensifica a perseguição contra ele até chegar à condenação e à morte na cruz. O evangelista João faz diferente, coloca essa ida para o Templo ainda no início do seu evangelho, logo após do “primeiro sinal” da água transformada em vinho nas bodas de Caná da Galileia (Jo 2,11). Isso significa que as atitudes e as palavras de Jesus nesses momentos têm um valor indicativo para começar a entender as disputas, as revelações, os “mal-entendidos” e os “sinais” que virão em seguida. Os discípulos interpretaram a ação de Jesus como consequência do seu “zelo”. Não foi, portanto, uma explosão de raiva momentânea, mas uma ação de denúncia contra aqueles que, para fazer os próprios interesses, aproveitavam do grande movimento de peregrinos e devotos, que cumpriam as suas obrigações com o Templo. De fato, o Templo era o centro vital de Jerusalém, não somente para os cultos e as orações, mas por toda a movimentação humana e financeira que gerava. Tendo certeza do pagamento dos impostos, tudo isso era tolerado pelos romanos que, também, tinham os seus interesses nos negócios do Templo. Até aqui, nada de muito novo: grandes templos, grandes negócios. Também nos dias de hoje. Temos que nos perguntar se ganha mais a fé dos fiéis ou o bolso dos organizadores. Os judeus, evidentemente, reclamaram da atitude de Jesus e pediram explicação. Um “sinal”, algo que justificasse o acontecido tão desagradável para eles. Aqui chegamos ao ponto central do evangelho deste domingo: uma profecia da ressurreição. É um dos tantos equívocos que pedem explicação no evangelho de João. Jesus falava do templo, mas não aquele de pedra onde eles estavam, falava do “templo” do seu corpo ressuscitado três dias após a morte na cruz. Algo impensável e incompreensível para todos, naquele momento, mas uma verdade que se tornará clara para os discípulos depois da ressurreição de Jesus, quando se lembrarão daquelas palavras.

Sem a luz da fé, nenhum sinal, por extraordinário que seja, nos conduz à confiança em Deus e ao seguimento de Jesus. Com fé, “sinais” pequenos e simples, que não dizem nada aos outros, podem ser decisivos para quem acredita. Pode ser um pequeno gesto de bondade e de partilha com um irmão necessitado, um ato de solidariedade com quem perdeu tudo, um abraço para quem chora sozinho. Toda ação que nos proporciona a alegria pelo bem que fazemos com humildade é um pequeno sinal que algo está mudando em nós, começa a aparecer o “homem novo”, o homem da Páscoa, livre da indiferença e do egoísmo. Às vezes, nós também somos tentados a pedir e a acreditar em grandes sinais. Devemos sempre olhar para o alto, ou seja, para a grandeza e a bondade de Deus, que Jesus veio nos fazer conhecer. Nem sempre grandes construções ou grandes eventos ajudam a aumentar a nossa fé. Rezemos para que eles sejam, ao menos, “reflexos” não do nosso orgulho ou sonhos de superioridade, mas sinais de uma fé “grande” de verdade.

Dom Pedro José Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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