Protótipos de baixa fidelidade

Protótipos de baixa fidelidade


Os desafios da prototipagem parecem descrever esforços que se realizam em camadas ou aproximações sucessivas entre aquilo que os inventores entregam e o que efetivamente os clientes ou receptores da invenção querem. A ideia de camadas é decorrente do fato de que a primeira versão geralmente está muito longe, bem distante mesmo, da versão final. Mas, apesar de estar muito distante, aquela primeira ideia já apresenta quase todas as principais características, funcionalidades ou benefícios que os clientes desejam.

A última camada, portanto, é a versão final, que é exatamente aquela que o cliente deseja, que contém tudo o que foi especificado durante as apresentações das camadas intermediárias. As camadas intermediárias explicam e permitem que se compreenda o que os cientistas chamam de aproximações sucessivas, que pode ser traduzido como incorporar, pouco a pouco, a cada apresentação dos andamentos da invenção aos clientes, novas características, funcionalidades ou benefícios, até que se chegue à versão final, definitiva, que é a desejada pelos demandantes da tecnologia.

Isso quer dizer que inúmeros protótipos são feitos, desde a primeira até a última versão, até que a tecnologia esteja pronta. Disso resulta que uma tecnologia é o protótipo que não tem mais nada a acrescentar naquele momento (mas que poderá sofrer acréscimos mais tarde), ou seja, tecnologia é o protótipo que foi aprovado em todos os testes a que foi submetido.

Um protótipo de baixa fidelidade pode ser considerado um rascunho. Um rascunho, contudo, não é um rabisco ou um desenho qualquer. Para os cientistas, um rascunho como protótipo é uma representação esquemática que apresenta tudo o que uma proposta de tecnologia tem que conter. É isso mesmo: tudo.

Tome-se o exemplo de uma planta arquitetônica, que é o primeiro esboço da construção de um imóvel. Ali devem aparecer os cômodos, suas metragens específicas e a metragem global da construção futura. Não aparecem os pilares, a rede elétrica nem a decoração, por exemplo. Esse tipo de protótipo é fundamental para que engenheiros e arquitetos saibam quantos quartos, salas, cozinhas e outros cômodos os clientes desejam e onde devem ser posicionados, dentre inúmeras outras decisões que precisam ser tomadas agora para que os outros protótipos possam ser construídos. Muita atenção, portanto, para não confundir rascunho ou esboço com ideia vaga, abstrata e sem sentido.

Para que servem, então, os protótipos de baixa fidelidade? Dito de outra forma: quais são os benefícios de se fazer primeiro um rascunho para depois fazer outros esboços cada vez mais completos até que a tecnologia esteja pronta? Pelo menos quatro aspectos justificam a adoção de protótipos de baixa fidelidade: representação visual, baixo custo, rapidez e detalhamento reduzido.

A representação visual permite que tanto os cientistas quanto os clientes que demandaram a tecnologia vejam como ela será quando finalizada em seus principais contornos. O aspecto visual permite a compreensão de inúmeras características que asseguram, preliminarmente, que os clientes se certifiquem se aquilo é realmente o que desejam. Se não for, podem ser feitas substituições rápidas, sem custos elevados e comprometedores.

Os custos são fatores decisivos tanto na produção tecnológica quanto no seu sucesso de mercado, quando essa for a finalidade da invenção. Falar em custo de uma tecnologia é considerar todos os gastos, desde os primeiros protótipos até a entrega final, além dos custos de outras tentativas fracassadas. Por exemplo, se 100 tentativas de tecnologias fracassam, todos esses custos acabam sendo incorporados ao valor da que foi bem-sucedida. Os protótipos de baixa fidelidade ajudam a reduzir os investimentos iniciais, pois são representações que não demandam muito dinheiro — como no caso de um aplicativo, cujo protótipo pode ser apenas uma série de desenhos com cada uma das telas.

Esses protótipos também são rápidos de serem feitos. Naturalmente que o termo “rapidez” é relativo, mas geralmente se refere à comparação entre o tempo necessário para construir toda a tecnologia e o tempo gasto para fazer a representação esquemática. Um exemplo emblemático é o plano piloto de Brasília: o arquiteto apresentou um esboço em formato de avião, com os rascunhos dos três poderes, o lago e as áreas funcionais da futura capital. Tudo isso levou menos de um dia para ser esboçado e aprovado.

Esboços são representações totais, mas contêm apenas o que é essencial. Na prototipagem de baixa fidelidade de Brasília, por exemplo, não apareciam todas as ruas, prédios e bairros. O detalhamento é reduzido, pois o que faltar de essencial será acrescentado nas primeiras apresentações aos clientes ou nos protótipos seguintes. À medida que a tecnologia avança, as características acessórias vão dando forma definitiva ao que os clientes desejam, construindo as novas camadas em aproximações sucessivas.

Por fim, os protótipos de baixa fidelidade são fundamentais porque permitem a tomada de decisão sobre iniciar ou abandonar um projeto com impacto financeiro e ambiental mínimo. Muitas vezes, são feitos apenas com papel e caneta. O que importa é que a primeira versão apresente as funcionalidades da tecnologia, com o detalhamento visual daquilo que realmente importa — feito com rapidez e baixo custo.


Dr. Daniel Nascimento e Silva

Dr. Daniel Nascimento e Silva

PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)



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