Dos 18 senadores eleitos pela Amazônia Legal, um terço vem do Partido Liberal (PL) e apenas três mulheres foram eleitas para o cargo: Mara Rocha (Republicanos-AC), Rayssa Furlan (Podemos-AP) e Teresa Surita (MDB-RO). A maioria dos estados que compartilham da Amazônia Legal definiu o governante estadual já no primeiro turno: foram seis homens eleitos, com destaque novamente ao PL e ao Partido Social Democrático (PSD) - dois de cada partido -, além do Podemos e Republicanos (um eleito cada).
De acordo com Ivan Silva, vice-coordenador geral do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia (LEGAL), as eleições deste ano estão consagrando uma tendência que ele observa desde 2014: o crescimento de candidatos, em todas as esferas, do que ele nomeia como “novas direitas”, um conjunto de expressões políticas, ideológicas e sociais, que une características do liberalismo econômico* com o conservadorismo moral*.
Ivan Silva, vice-coordenador geral do LEGAL, analisa o avanço das novas direitas na Amazônia - Crédito: foto de acervo pessoal
Exemplo disso é a predominância do PL (direita) em todas as esferas, incluindo a maior bancada da Câmara dos Deputados. “Não é só uma disputa eleitoral. O movimento das novas direitas vem há muito tempo produzindo uma disputa cultural. O bolsonarismo, por exemplo, não é uma expressão de classe média, é um fenômeno de base popular com forte enraizamento social", analisa.
O crescimento de votos à direita, segundo ele, é resultado de uma perda de espaço tanto da esquerda quanto do chamado “centrão”. “Temos visto algumas novidades em relação aos anos anteriores. Uma delas é uma mudança no comportamento do eleitorado brasileiro, que passou a votar de forma muito mais blocada, mais preocupado com a ideologia do que com o caráter nominal", explica.
Ou seja, se antes a população se preocupava mais com a identificação de cada candidato, com essa identificação se sobrepondo à importância do partido ou alinhamento ideológico, agora essa priorização se inverteu.
Outra novidade, segundo Silva, é a quantidade de eleições resolvidas no primeiro turno para os governos estaduais. No caso da Amazônia Legal, seis dos nove estados já tomaram sua decisão. O que resta, agora, é saber como será a eleição para presidente no segundo turno e os desdobramentos dessa escolha.
“Se Lula conseguir o feito de virar o segundo turno, será confrontado com o cenário mais complicado que já enfrentou, com um Legislativo capitaneado pela oposição, pela extrema direita, e no Senado também, além de um Judiciário em frangalhos", resume.
Nesse cenário, Lula pode enfrentar a perda de mecanismos tradicionais de controle orçamentário, tornando a governabilidade extremamente complexa. Por outro lado, Flávio Bolsonaro atuaria com a vantagem de ter a maioria do Congresso e do Senado ao seu lado, com maior capacidade de implementar sua forma de governar.
“Com Flávio, podemos esperar que a pauta ambiental seja uma das primeiras a serem tratadas, seja pela maioria parlamentar da extrema direita ou pela adesão dos governadores eleitos na Amazônia Legal, vinculados a pautas do agronegócio e da mineração”, conclui.
No caso dos senadores da região, o PL tem a maioria dos eleitos (seis de 18), seguido pelo MDB (quatro). Confira, abaixo, a distribuição e a comparação do Senado na Amazônia Legal em 2022 e 2026:
Apenas homens foram eleitos como governadores no 1º turno
O perfil que se desenha para a Amazônia Legal é majoritariamente formado por políticos homens, brancos e alinhados à direita. No caso dos governadores eleitores, todos são homens, sendo dois do PL, dois do PSD, um do PODEMOS e um do Republicanos. São eles:
Amapá - Dr. Furlan (PSD)
Maranhão - Eduardo Braide (PSD)
Mato Grosso - Otaviano Pivetta (Republicanos)
Pará - Dr. Daniel (Podemos)
Rondônia - Marcos Rogério (PL)
Roraima - Arthur Henrique (PL)
Nenhum indígena eleito para Senado e Governo
Nenhum representante indígena foi eleito para os cargos de Senado ou Governo nos nove estados que compõem a Amazônia Legal, apesar do bioma reunir a maior parte da população originária no Brasil, com cerca de 440 mil indígenas.
A Bancada Indígena (também conhecida como Bancada do Cocar) é a organização dos candidatos feita pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Segundo a plataforma, havia dois candidatos ao Senado: Ismael Munduruku (REDE-AM) e Bartô Macuxi (PSOL-RR), mas que não chegou a 2% dos votos.
Para o governo estadual, o único candidato da Amazônia Legal listado na Bancada do Concar era Isael Munduruku (REDE-AM), que ficou em penúltimo lugar na disputa, com apenas 0,55% dos votos válidos (total de 11,4 mil votos).
Coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Toya Manchineri lembra que no passado havia governadores de esquerda na Amazônia, o que “mudou nos últimos anos". Em 2008, por exemplo, eram dois governadores do PT e dois do PDT nos estados da região. “A extrema-direita foi crescendo em cima da pauta do desenvolvimento, mas um desenvolvimento que não é inclusivo nem sustentável, e que beneficia apenas os grandes empresários e a elite brasileira", argumenta.
Segundo ele, há um desequilíbrio entre o financiamento de campanhas de candidatos indígenas em comparação àquelas vinculadas ao agronegócio, à mineração e à grilagem. “Mesmo com a reeleição de Lula - que é um desejo do movimento indígena - estamos muito preocupados com o que está prestes a acontecer. Três senadores reeleitos votaram a favor do Marco Temporal e encampam campanhas contra o movimento e a demarcação de Terras Indígenas, e este é só um exemplo", declara.
Manchineri também olha para o cenário da Pan-Amazônia com preocupação: “os governos desses países são pró-Trump e estão pautando a concessão das terras raras para os Estados Unidos. Na Amazônia brasileira, parte dessas terras raras está dentro de Terras Indígenas", finaliza.
Três mulheres disputam o 2º turno para o governo estadual
Apesar de nenhuma mulher ter sido eleita para o governo estadual no 1º turno, três candidatas disputam no 2º turno: Mailza Assis (PP-AC), Maria do Carmo (PL-AM) e Professora Dorinha (União Brasil -TO).
Gleys Ramos, coordenadora do Observatório Transdisciplinar sobre Feminismo, Política e Métodos (OUTRAS) e professora da Universidade Federal do Tocantins (UFT), observa que a própria proporção de candidaturas de mulheres caiu drasticamente este ano. “Isso mostra que a política de cotas para mulheres não está sendo cumprida pelos partidos.
Gleys Ramos, coordenadora do OUTRAS e professora da UFT, analisa a participação das mulheres na política. - Crédito: foto de acervo pessoal.
“Não estamos mais falando de diminuição de mulheres na política, mas de exclusão efetiva. E isso não é à toa. Já vemos nas redes sociais até uma espécie de campanha à retirada do voto feminino, há um cenário de misoginia muito forte no país todo", reflete.
Em 2018 e 2022, também não houve nenhuma mulher governadora eleita na Amazônia Legal e a única senadora eleita em 2022 foi a professora Dorinha. “Também precisamos analisar quem são essas mulheres eleitas. São mulheres da direita e da extrema direita em sua vasta maioria. Não são candidatas que vão discutir temas como os direitos femininos ou pobreza menstrual, por exemplo. São mulheres à frente de agendas de homens”, aponta Gleys.
Candidatos que concorrem ao segundo turno na Amazônia Legal:
Acre - Mailza Assis (PP) x Alan Rick (Republicanos)
Amazonas - Osmar Aziz (PSD) x Maria do Carmo (PL)
Tocantins - Professora Dorinha (União Brasil) / Vicentinho Júnior (PSDB)
Todos os senadores eleitos na Amazônia Legal:
Acre - Marcio Bittar (PL) / Mara Rocha (Republicanos)
Amapá - Rayssa Furlan (Podemos) / Lucas Barreto (PSD)
Amazonas - Eduardo Braga (MDB) / Plínio Valério (PSDB)
Maranhão - André Fufuca (PP) / Lahesio Bonfim (NOVO)
Mato Grosso - Mauro Mendes (União) / Zé Medeiros (PL)
Pará - Helder Barbalho (MDB) / Chicão (União Brasil)
Rondônia - Fernando Máximo (PL) / Bruno Scheid (PL)
Roraima - Nicoletti (PL) / Teresa Surita (MDB)
Tocantins - Eduardo Gomes (PL) / Alexandre Guimarães (MDB)
*Liberalismo econômico: teoria política, econômica e social que defende o livre mercado, o direito à propriedade privada e a liberdade individual das pessoas. Para alcançar esses ideais, a teoria defende que o Estado deve interferir pouco na sociedade.
*Conservadorismo moral: corrente que prioriza a defesa de valores tradicionais, da ordem social, da religião e da estrutura familiar clássica; defensores costumam se opor a pautas progressistas, como a ampliação de direitos de comportamento e pautas identitárias.
Texto: Alice Martins Morais. Edição: Natália Mello. Revisão de Carla Fischer.
