Uma nova tecnologia pode reduzir em até 90% as emissões de CO₂ e gerar economia de 50% na produção de argamassa para o setor da construção civil. Desenvolvida pela Unidade Embrapii Senai Cimatec, em parceria com a empresa amapaense Mazodan Laboratório & Produtos Cimentícios, a solução utiliza resíduos e rejeitos minerais do Rio Amazonas, transformando sedimentos ultrafinos em um material com maior resistência, durabilidade e eficiência. A inovação amplia o aproveitamento de recursos amazônicos e abre caminho para materiais de construção alinhados à descarbonização e à economia circular.
Para a sociedade, os benefícios vão muito além da questão ambiental: a tecnologia estimula a bioeconomia regional, fortalece a cadeia produtiva de inovação verde no Norte do país, gera oportunidades econômicas e possibilita a edificação de estruturas mais sustentáveis e preparadas para enfrentar os desafios climáticos das próximas décadas.
A iniciativa foi motivada pela necessidade de enfrentar os gargalos ambientais e logísticos da construção civil tradicional, setor que consome grande quantidade de recursos naturais não renováveis, além de ser potencial emissor de gases de efeito estufa. “Tínhamos o desafio de transformar um passivo ambiental, os sedimentos e rejeitos minerais subaproveitados do Rio Amazonas, em um recurso tecnológico de alto valor agregado, unindo a preservação dos ecossistemas amazônicos à eficiência da indústria construtiva”, explica Michael Carvalho, CEO e fundador da Mazodan, a primeira construtech da Amazônia.
A nova argamassa surge como uma alternativa ecológica e viável aos cimentos convencionais. Calcula-se que há atualmente, 1,2 bilhão de toneladas de sedimentos assoreando os rios da Amazônia em processo cíclico agravado pelo aquecimento global. Os dados são da organização Aliança Águas Amazônicas (ÁGUAS AMAZÔNICAS). Ao aproveitar partículas minerais antes ignoradas economicamente, a tecnologia reduz substancialmente a pegada de carbono das edificações, além de dispensar o uso de insumos finitos e assegurar construções mais resistentes, duráveis e termicamente eficientes.
A solução foi criada para aplicação no assentamento de blocos e tijolos em paredes. “Essa argamassa é pronta para uso, podendo ser comercializada em bisnagas, proporcionando um canteiro de obras mais enxuto, com menos desperdícios e menor geração de resíduos", informa o pesquisador da Unidade Embrapii e líder técnico do projeto Nilson Amorim.
O produto desenvolvido é quatro vezes mais resistente que a argamassa comum e mil quilos desta argamassa polímérica substituem 20 toneladas de argamassa cimentícia, quantidade suficiente para a construção de três casa populares. Outra vantagem é que não há a necessidade de mistura, dispensando o uso de betoneira, água, cimento ou areia.
No site da Mazodan, é possível fazer uma simulação de custos, de acordo com a região do país, com material e mão de obra, com base em dados oficiais do Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (Sinapi). Na região Centro-Oeste, por exemplo, o custo com material convencional e mão de obra para revestir 200 m² chega a R$ 15.417,20. Para revestir a mesma área com a argamassa Mazodan, o valor cai para R$ 7.309,60, 52% mais barato.
Transformação em cadeia
Ao converter resíduos em riqueza e conhecimento, a iniciativa consolida o desenvolvimento de tecnologias industriais sustentáveis genuinamente brasileiras e amplia o enorme potencial econômico associado ao uso consciente dos recursos da Amazônia.
Para o setor da construção civil, o projeto abre caminho a uma nova geração de materiais alinhados às metas globais de descarbonização e aos princípios da economia circular, aumentando a competitividade e a modernização industrial. Para a sociedade, os benefícios vão muito além da questão ambiental: a tecnologia estimula a bioeconomia regional, fortalece a cadeia produtiva de inovação verde no Norte do país, gera oportunidades econômicas e possibilita a edificação de estruturas mais sustentáveis e preparadas para enfrentar os desafios climáticos das próximas décadas.
A viabilização desse avanço contou com o papel decisivo da Embrapii ao longo de todo o desenvolvimento do projeto, o que permitiu que a construtech do Amapá transformasse uma ideia inovadora em um produto comercial de impacto nacional. “A Embrapii atuou como a ponte fundamental entre a pesquisa científica e o mercado final, fornecendo o suporte financeiro necessário para mitigar os riscos inerentes à inovação industrial e viabilizando o acesso à infraestrutura tecnológica de ponta da Unidade Senai Cimatec”, reforça Carvalho.
Novos produtos em desenvolvimento
A parceria entre a Mazodan e a Embrapii deu tão certo que mais dois novos produtos estão em desenvolvimento: uma massa nivelante, que substitui o reboco tradicional, e um cimento aprimorado geopolímero, obtido a partir de rejeitos de barragens de mineração. O primeiro deve entrar no mercado ainda este ano, enquanto o segundo está em fase de pesquisa.
Sobre a Embrapii
A Embrapii é uma organização social que atua em cooperação com Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs), públicas ou privadas, para atender ao setor empresarial e fomentar a inovação na indústria. Para isso, conecta centros de pesquisa e empresas, compartilhando os custos da inovação ao aportar recursos não reembolsáveis em projetos que levem à introdução de novos produtos e processos no mercado. Para ter acesso ao modelo, a empresa deve apresentar seu desafio tecnológico à Unidade Embrapii com a competência técnica que se enquadra às necessidades do projeto.
A Embrapii possui contrato de gestão com o Governo Federal, por meio dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Educação, da Saúde e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Além disso, possui parceria com o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
