Uma resposta convincente já não permite saber quanto o candidato domina do assunto. No Brasil, um levantamento da Heach Recursos Humanos com 3.040 participantes das cinco regiões apontou que 35,8% disseram ter usado inteligência artificial para formular respostas durante entrevistas de emprego. O dado ajuda a explicar a relevância de uma discussão prevista no Web Summit 2026, que acontece de 9 a 12 de novembro, em Lisboa: o que a seleção consegue avaliar quando a tecnologia participa da conversa?
A programação do dia 10 inclui a sessão “Are job interviews real anymore?”, com Mahe Bayireddi, CEO e cofundador da Phenom. A questão chega ao evento enquanto empregadores brasileiros acrescentam verificações às contratações. Em pesquisa da Robert Half com 500 responsáveis por decisões de contratação no país, realizada em junho de 2026, 33% afirmaram ter incluído entrevistas e etapas de triagem para conferir habilidades e experiências apresentadas pelos candidatos.
Para João Paulo Batistella, fundador e CEO da Eleva Technologies, acrescentar etapas só ajuda se elas permitirem conhecer melhor como o profissional trabalha. “A empresa brasileira precisa olhar para o que está tentando descobrir nessa entrevista. Se pede um material pronto e depois faz perguntas que podem ser ensaiadas, pode terminar a seleção sem conhecer a capacidade do candidato. Eu perguntaria qual decisão ele tomou num trabalho anterior, que alternativa descartou e o que precisou corrigir. É nessa conversa que sua experiência começa a aparecer”, afirma.
Essa cobrança ocorre num mercado em que os próprios empregadores também recorrem à tecnologia. Em páginas oficiais de vagas, o Inter informa que utiliza IA para analisar transcrições de entrevistas e verificar a correspondência entre as competências dos candidatos e o perfil procurado. A empresa comunica esse uso e permite que o profissional não autorize o tratamento sem prejuízo à candidatura.
Por isso, a discussão exige cuidado antes de classificar a assistência como desonestidade. Pesquisar a empresa, organizar experiências verdadeiras e praticar respostas são formas de preparação. Inventar realizações ou receber ajuda escondida numa avaliação que proíbe esse recurso são situações diferentes. O levantamento da Heach, feito com participantes de sua própria base, não representa todos os candidatos brasileiros nem permite concluir que os usos relatados descumpriram regras.
Quando a assistência é permitida, a entrevista pode partir do material entregue para verificar sua compreensão. Numa proposta comercial, por exemplo, uma redução de orçamento obriga o candidato a rever prioridades. Pedir que ele explique o ajuste permite observar algo que a apresentação pronta não revela: como decide diante de uma dificuldade.
Para Batistella, esse acompanhamento torna a avaliação mais útil do que tentar adivinhar se uma resposta veio da IA. “Eu não contrataria alguém só pela resposta certa; precisaria entender como chegou até ela. O candidato sabe conferir uma informação, perceber um erro e mudar a proposta quando o cenário muda? Saber usar IA inclui discordar do que ela entrega. A empresa precisa esclarecer o uso permitido e acompanhar uma tarefa próxima da função, com perguntas sobre as escolhas feitas”, diz.
É nesse ponto que a discussão em Lisboa encontra a rotina das contratações brasileiras. Sem verificar como o candidato sustenta o que apresentou, uma empresa pode contratar uma competência que desaparece quando começa o trabalho. Também pode perder um bom profissional ao confundir o uso da ferramenta com falta de capacidade.
Sobre João Paulo Batistella
João Paulo Batistella é fundador e CEO da Eleva Technologies, grupo de software com inteligência artificial aplicada a pequenos e médios negócios. Engenheiro de Computação pela Unicamp, tem MBA pela FGV e formação em conselhos de administração pelo IBGC. Foi COO e CEO da Ericsson Inovação e tem passagens por Telefônica/Vivo, PT Inovação e Amdocs. Atua com inovação, inteligência artificial e transformação organizacional. Prepara o lançamento de Legado Inteligente, sobre os desafios de levar empresas estabelecidas para a era da inteligência artificial.
Créditos: @batistellabr | CO ASSESSORIA
Referências de pesquisa
1. Web Summit 2026 — datas oficiais do evento Link
2. Web Summit — programação da sessão “Are job interviews real anymore?” Sessão prevista para 10 de novembro de 2026, com Mahe Bayireddi. Link
3. Heach — uso de IA por candidatos em processos seletivos Levantamento com 3.040 participantes, divulgado pelo Portal Information Management em 28 de outubro de 2026. Fonte do percentual de 35,8% sobre assistência durante entrevistas. Link
4. Robert Half — verificações adicionais nas seleções brasileiras Pesquisa realizada em junho de 2026 com 500 empregadores, divulgada em agosto. Fonte do percentual de 33% sobre entrevistas e etapas adicionais de triagem. Link
5. Inter — uso de IA na análise de entrevistas Página oficial de vaga com informações sobre análise de transcrições, consentimento e possibilidade de recusa sem prejuízo à candidatura. Link
6. João Paulo Batistella — formação, trajetória e livro Página oficial do autor. Link
