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✒ Artigo

O PASTOR ASSALTANTE

A jogatina de baralho apostada corria solta num cassino clandestino numa cabeça-de-porco dos arrabaldes daquela outrora pacata cidade de Santana.

Zé Abdon jogava altas quantias e sob o bafo da água que passarinho não bebe, arrotava riqueza e tirava notas de cem pilas do tufo no bolso.

-Comigo é na grana, lá em casa tenho mais um monte desses!

Zé Abdon tinha vendido uma propriedade e recebera tudo em dinheiro vivo, prática corriqueira nos rincões da Amazônia onde boa parte das cidades sequer tem banco. Quando muito tem uma agência postal precária.

O erro senão falta de malícia de Abdon foi prejulgar que ali não havia malacos. Atentos aos papos e às notas de 100, “passaram o serviço” pra galerinha amiga do alheio.

Estes armaram tocaia no quintal da casa de Abdon, subindo num frondoso pé de manga. Assim que ele abriu a porta, três meliantes pularam da árvore e o renderam.

Ato contínuo, amarraram e amordaçaram a família toda, trancafiando no banheiro. E começaram o “limpa” de várias, notebooks, celulares, micro-ondas etc. e o dinheiro no colchão de Abdon.

Logo em seguida chegou a filha mais velha de Abdon, uma sargento bombeira militar. Assim que desceu do carro, foi rendida, amarrada e amordaçada junto com os demais.

O roubo rendeu tanto que não cabia no Celta estacionado na esquina, onde um quarto elemento aguardava. Por isso, a caterva resolveu roubar o veículo da sargento.

Momentos depois do roubo, a bombeira conseguiu se desvencilhar das cordas e acionou as forças policiais, que fizeram o cerco nas 3 únicas rodovias de fuga. 

Os três meliantes tinham características ímpares: um bem jovem, notadamente menor de idade, magricelo de joelho pontudo, cabelos lisos e longos; outro bem alto, magro, também cabeludo e com várias tatuagens tribais pelos braços e no pescoço. Além disso, não era negro nem pardo, mas de uma cor meio que cinzenta/amarelada, parecia um cão da raça Weimaraner todo lambuzado de merda, acho que o infeliz estava com icterícia.... rsss. 

O outro era baixinho e troncudo, orelhas de abano deformada igual de lutador de jiu-jitsu e cabelo de corte militar.

Naquela época havia recém-lançado o HB20, por isso ficou fácil a Polícia identificar o veículo em fuga. No trevo do km 9, o HB20 branco furou o cerco policial e a bala comeu. Alguns quilômetros o carango sobrou numa curva e capotou. Dois meliantes fugiram rapidamente pela mata efetuando disparos contra a PM, mas o menor ficou preso no banco de trás no meio da muamba. 

Entretanto, aquela mata é um cerrado de transição, um bioma onde os capins “navalha de macaco” e tiririca deixaram marcas indeléveis nos malandros.

O menor infrator, por livre e espontânea “pressão”, entregou o serviço. O tenente foi experto e exigiu do menor que o levasse até a casa da amásia do líder da quadrilha, o vagabundo de tez cinzenta cor de merda. E lá a “convenceu” “espontaneamente” a ligar em viva voz para o Cinza e este confessou à mulher onde estava homiziado debaixo da cama de um compadre, integrante da facção Família Terror.

Lógico, estava com medo de ser executado pelo Bope porque havia atirado na viatura militar. Inclusive um dos tiros pegou na borda da porta e atravessou o para-brisa, passando a meio palmo do rosto do patrulheiro.

Faltava localizar o terceiro assaltante, o baixinho troncudo. E a polícia, em carro descaracterizado, fez várias incursões pelo bairro, até que de repente o menor, já na boca da noite, falou para o tenente:

-Espia, lá vai ele! Ele é o pastor da igreja evangélica “Aliviai, Senhor”.

O oficial, incrédulo, olhou para aquele senhor bem vestido de terno e gravata, cabelo e barba aparados, bíblia debaixo do braço e deu um tremendo ralho no pivete:

-Para com graça, pirralho, senão lhe dou umas bifas... rummmm!

-Sério, tenente, é ele mesmo...

O bravo militar pediu para o pastor tirar o terno e levantou as mangas da camisa e barras da calça e lá estava o indício fatal da coautoria do crime: as pernas e os braços todos lanhados recentes pelos capins cortantes. 

Isto é, o pastor fez “um extra” naquele dia, porque vai ver os dízimos estavam em baixa (rsss).

Bem, as vítimas, apesar de submetidas ao terror e violência física, não titubearam em reconhecer um a um por causa das características marcantes dos assaltantes.

E durante a ação, os três deixaram momentaneamente caírem as máscaras... Apenas o quarto elemento que conduzia o Celta não foi identificado. Certamente foi um taxista pirata contratado apenas para dar fuga ao assalto. Como não era do conhecimento das vítimas e da polícia esse integrante naquele momento, passou incólume nos cercos policiais.

O que me causou espanto na audiência de instrução e julgamento (e não foi a primeira vez), foi a beleza estonteante da mulher do cabeça do bando, o Cinza. É incrível como esses ladrões, membros de facções, mal apessoados, se envolvem com mulheres lindas.

Assim que saí no corredor do Fórum, uma jovem bem maquiada e vestida com o belo uniforme de uma famosa franquia de perfumes me abordou, pedindo para falar com o Cinza, seu amásio.

E eu fico me perguntando: o que cativa essas mulheres a terem amor bandido?

Lembra-me a história de Patricia Hearst, herdeira bilionária de um império jornalístico dos EUA que ao ser sequestrada por membros do Exército Simbionês de Libertação, passou a adotar o nome de Tania, juntando-se aos sequestradores em assalto a bancos. 

Parece coisa retirada de roteiro de cinema de Hollywood, mas na minha vida profissional me deparei com situações semelhantes.

Em Belém, uma defensora pública filha de um amigo meu também operador do direito, apaixonou-se perdidamente pelo detento José Augusto Viana David, o Ninja, um dos assaltantes e latrocidas mais cruéis que já houve no Brasil, com horrenda trajetória de mais de 100 assaltos a bancos em diversos estados. 

Para se ter ideia da falta de piedade do elemento, em um dos assaltos matou uma funcionária da Caixa com um tiro na cabeça que, nervosa, demorou para abrir o cofre de agência.

Numa rebelião no Presídio São José, hoje transformado no Espaço São José Liberto - o Polo Joalheiro, um dos pontos turísticos mais legais de Belém, a cabeça de Ninja rolou pelos telhados como bola de futebol.

Outro caso: em um assalto a uma mulher em Macapá na saída de um supermercado, a quadrilha levou-a com seu carro cheio de compras para um pinhal e lá, na última hora, o líder da quadrilha não deixou os comparsas estuprarem-na. No dia da audiência, a vítima me procurou momentos antes porque queria depor a favor dos facínoras e, inclusive, pagar advogado particular.

Esse comportamento dela e da Patrícia Hearst ficou conhecido como Síndrome de Estocolmo, quando a vítima sente simpatia pelo algoz. 

E a outra atitude é amor bandido mesmo! A adrenalina explica!

Dr. Adilson Garcia

Dr. Adilson Garcia

Fórum Íntimo – professor doutor em Direito pela PUC- -SP, advogado e promotor de justiça aposentado.

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